Se você deseja desenvolver o conhecimento e a prática no atendimento a pessoas com gagueira, pode fazer isso no CEFAC junto ao atendimento voluntário coordenado por Silvia Friedman, desde 2000

Duração
Mínimo de um ano para obter certificado

Horário
Segundas-feiras das 8h às 12h

Atividade
8h – 10h – observação do atendimento feito por Silvia Friedman a um grupo de adultos com gagueira
10h – 11h – atendimento a um grupo de crianças
11h – 12h – supervisão e estudos

Requisitos
Ser fonoaudiólogo com pelo menos 3 anos de formação e de prática clínico-terapêutica comprovada

Interessados
Entrar em contato com Silvia Friedman para uma entrevista, pelo e-mail silfriedman@yahoo.com.br

A gagueira na infância


Silvia Friedman

A gagueira na infância é uma manifestação que, como outras manifestações humanas, pode ser interpretada de diferentes maneiras. Desde o ponto de vista do senso comum, quando uma criança fala com repetições, prolongamentos e hesitações (que são as formas mais freqüentes de gagueira), como por exemplo: “que que que quero sair mamãe” aooooonde estamos?” esse o, o, o, o primeiro”. Com muita freqüência, os pais e outras pessoas da família, assim como os professores, acreditam ser bom e recomendável chamar a atenção da criança por este ato. Assim, solicitam à criança que fale devagar, com calma, que pense e respire antes de falar. Com isto podemos entender que as pessoas acreditam que o gaguejar necessita de correção e que, conseqüentemente, acreditam que esta não é uma forma adequada de falar. Reagem negativamente à ela. As próprias crianças reagem negativamente à gagueira de outras crianças, rindo ou imitando, porque é normal em nossa cultura, portar-se desta maneira diante de comportamentos que fogem dos padrões habituais.   

Se as condições descritas se repetem freqüentemente na vida de uma criança, com o passar do tempo os pais vêem que a gagueira não desaparece e inclusive aumenta, passando a adquirir outras características, como por exemplo: ficar com a boca aberta sem emitir sons por alguns segundos, antes de dizer uma palavra; franzir a testa ao falar; apertar os lábios com força antes de dizer uma palavra que começa com ”p”; deixar escapar ar antes de dizer uma palavra. Assim, na lógica do senso comum, é como se algo ruim estivesse travando o mecanismo da fala, ou seja, no organismo da criança e que este mal está piorando.

Uma outra forma de ver esse mesmo conjunto de ocorrências vem da investigação científica. Esta pode mostrar-nos um panorama bastante distinto do anterior, a partir de conhecimentos que ainda não são acessíveis ao senso comum. O ponto de partida dessa visão é a compreensão de que o ser humano é um ser bastante complexo e, nessa condição, não se pode olhar para as suas manifestações, em particular para sua forma de falar, somente com base no funcionamento do organismo. Isso porque que o desenvolvimento humano acontece a partir da integração ativa entre as dimensões orgânica, psicológica e social. Assim, os modos de ser de uma pessoa dependem das relações entre o meio sócio-cultural com seus valores e significados, seu psiquismo e seu organismo.

Partindo deste ponto de vista, há estudos em Lingüística (ciência que estuda a linguagem em sua manifestação escrita e falada) que se apóiam na observação dos modos de falar das pessoas e estes estudos nos mostram que as repetições, prolongamentos e hesitações são fenômenos comuns na fala de qualquer pessoa, em qualquer idade. Estes pequenos lapsos, nos ensina a Lingüística, são momentos de subjetivações que se processam enquanto se está falando. Momentos em que se busca uma palavra, se pensa na maneira de traduzir uma idéia ou sentimento em palavras, se sente ou se pensa algo simultaneamente ao que se está dizendo e assim sucessivamente. Estas subjetivações, impossíveis de serem evitadas, podem provocar as repetições, prolongamentos e hesitações. Se escutarmos atentamente a fala, não só de nossos filhos, mas também de outras pessoas, adultos ou crianças, inclusive a nossa, descobriremos que isto é verdade.

Outro ponto importante que nos ensina a Lingüística é que sabemos falar, mas não sabemos como o fazemos. Quer dizer, as pessoas sabem falar mas não sabem o que fazem para falar. Falar é uma ação automática e inconsciente. Quem fala, apenas emite uma cadeia de sons que caracterizam seu idioma e formam as palavras, sem buscar conscientemente este ou aquele som. A atenção não está nos sons, mas nos significados, nos sentimentos que quer expressar. As palavras são emitidas de modo inconsciente. Quem coloca a atenção nos sons, perde a dimensão do significado.

Agora, tomemos como base as considerações dos três parágrafos anteriores, relacionemos com o que dissemos no começo do texto sobre os modos de reagir à gagueira, a partir do senso comum, para fazer uma análise do que pode resultar da combinação de ambos. Esta análise está apoiada em outra ciência, a Psicologia Social.

Ao reagir à fala de uma criança pedindo que fale devagar, com calma, etc., se está recusando seu modo natural e automático de falar. Além disso, esta não aceitação se distingue das correções que, freqüente e necessariamente os adultos fazem aos modos de falar de suas crianças, porque nestas, se corrige sempre alguma palavra específica ou frase do discurso dito. Desta forma, a criança sabe onde está o seu erro , o que se espera que seja corrigido e então, pode fazê-lo. Ao contrário, ao dizer-lhe coisas como fale devagar, fale com calma, não se mostra onde está o erro. É como se o erro estivesse em toda a sua fala. A criança não tem como saber em que lugar deve fazer a correção. Toda a sua fala está sendo recusada.

Se este tipo de relação de comunicação se apresenta de maneira consistente na vida de uma criança, como conseqüência, ele começa a temer sua maneira espontânea de falar. Começa também a adivinhar as palavras em que supõe, aparecerão problemas. Deste modo, o gaguejar que era natural, começa a ter um novo modo de funcionamento, que chamamos de gagueira sofrimento. Este novo modo se caracteriza pela sensação de medo de falar espontaneamente e por pensamentos de antecipação da ocorrência de problemas para pronunciar aquilo que, todavia, não foi pronunciado. As antecipações, por sua vez, são para o falante tentativas de solucionar problemas. Assim, ao falar, a criança sai do eixo da “emissão “ dos sons, onde sua atenção está nos significados, para ficar preso ao eixo das formas lingüísticas. A palavra perde seu valor simbólico e passa a ter valor de “coisa”; o som deixa de estar em uma cadeia com outros sons que se (deslizam) emitem automaticamente, inconscientemente e passa a constituir-se em um perigo sem saída. Então, os músculos que em outras muitas ocasiões produziram este som, repentinamente, não o fazem mais.

Esta nova maneira de comportar-se ao falar aumenta o número de gagueiras porque, justamente, elas são antecipadas. Além disso, são acompanhadas de tensão, porque o sentimento de medo de falar leva a pessoa, inconscientemente, a produzir de maneira tensa os diversos gestos correspondentes aos sons da fala. Freqüentemente, se somam a isso, movimentos em diversas partes do corpo (fechar os olhos, fazer movimentos bruscos com a cabeça, com os braços ou pernas) que a criança usa como uma forma de tentar soltar os sons que inconscientemente estão se prendendo pelo medo de falar. Esta forma de falar se automatiza, porque o automatismo é inerente à natureza da fala e, desta forma, oculto em todo o processo por meio do qual se instalou, parecendo ser simplesmente um defeito da fala.

A gagueira sofrimento é um novo modo de funcionamento da fala que não elimina o modo anterior. O modo anterior se refere ao falar fluente que contém uma gagueira natural, sem antecipações, sem sofrimento. As duas maneiras convivem, deixando perplexa a pessoa, porquê quanto menos deseja gaguejar, mais o faz. Ela não se dá conta que o desejo de não gaguejar é a força que move a gagueira.

Apesar destas condições, o que se observa é que esta maneira sofrida de gaguejar não ocorre em todos os lugares e momentos, nem com todas as pessoas com quem se fala. Ocorrem somente quando a situação de comunicação leva a criança a se sentir avaliada, controlada, julgada em sua forma de falar. Por isso, ele se mostra mais ou menos fluente de acordo com as circunstâncias. Por exemplo, pode gaguejar muito ao falar com seu pai e nada ao falar com um irmão, um amigo ou com seu animal de estimação. Tudo isto nos mostra que a gagueira não está na pessoa, em seu organismo, está sim, na situação discursiva, está entre as pessoas que participam do contexto.

Chegamos assim a uma nova visão do gaguejar, não simplesmente como algo que começa e depois piora como se o organismo daquele que fala tivesse algum problema. Chegamos a uma visão que nos mostra que há uma gagueira natural que é parte integrante do falar fluente, e que há uma gagueira sofrimento que é uma nova forma de produzir a fala, que se desenvolve, necessariamente, entre os interlocutores e que depende das relações de comunicação para continuar processando-se.

Frente a tudo isto entendemos que é extremamente necessário desenvolver uma nova mentalidade diante da gagueira das crianças. Esta nova mentalidade estabelece que é necessário respeitar e compreender a gagueira como lugar de subjetivação. Assim, é necessário compreendê-la como algo natural que tem que existir para que se possa falar e que ao mostrar-se, necessita somente ser aceita, para que não se destrua a confiança necessária na fala que permite a uma pessoa falar como tem que ser: espontaneamente.