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Mito: a gagueira não tem cura


Silvia Friedman

Embora existam profissionais que considerem a gagueira uma patologia sem cura mas com controle, há quem sustente que ela tem cura.

A visão de que a gagueira não tem cura está apoiada na hipótese de que sua causa é orgânica. Com base nela cientistas tem investigado aspectos neurológicos e genéticos que possam explicá-la. Nenhuma pesquisa, entretanto, chegou, até o momento, a uma resposta conclusiva que demonstre de modo irrefutável o quê no organismo explica a gagueira.

Como existem outros modelos, além do orgânico, por meio dos quais o conhecimento científico pode ser construído, há quem pesquise como a gagueira se constitui a partir da vida de relação. Esse tipo de pesquisa está apoiada na compreensão de a vida de relação - que se refere a nossa vida em sociedade; às relações que estabelecemos com os outros - pode imprimir marcas em circuitos neuronais, sem que o corpo tenha qualquer predisposição previa para tal, marcas que influenciam o modo de ser da pessoa: seus pensamentos, sentimentos e ações.

Duas marcas se revelaram nas pessoas com gagueira: uma imagem negativa de falante e um funcionamento discursivo desviante que faz sentido com a imagem negativa.

A imagem negativa de falante mostra sua origem numa visão de senso comum que considera a fluência como sendo absoluta, ou seja, sem lapsos, pausas ou disfluências, que leva as pessoas (na família, na escola) a rejeitarem o padrão disfluente na fala infantil. Esta rejeição frequentemente se materializa por frases do tipo “calma, pensa antes de falar, respira”, que em nada ajudam a criança a falar sem disfluir, mas fazem com que ela entenda que não falou adequadamente; que o modo como ela fala desagrada.

Em decorrência disso a criança passa a querer evitar ou esconder esse padrão. Sobre isso é importante compreender que o falante sabe falar, mas não sabe como o sabe. Por isso para esconder ou evitar algo em sua fala, só pode recorrer à materialidade da língua. Assim, passa a supor em que lugar da frase estará a palavra disfluente e, geralmente, supõe que estará na palavra mais importante, por exemplo, se tem que dizer seu nome, suporá que a disfluência incidirá ai. Como a disfluêcia é indesejada, essa suposição trava seus movimentos articulatórios para impedir a palavra de sair. Ao mesmo tempo, a trava faz parecer que de fato sabia onde a disfluência iria incidir o que perpetua a previsão. Com o tempo o falante pode introduzir truques em sua fala para lidar melhor com suas previsões. Esses truques visam adiar a palavra que previu como problemática ou dispará-la. São estratégias criadas pelo falante para falar com fluencia que, geralmente, funcionam, mas também enchem sua fala de comportamentos bizarros.

Com base nesse tipo de compreensão, que mostra o funcionamento subjetivo da gagueira, uma abordagem terapêutica que construa um novo sentido para a imagem de falante de uma pessoa gaga e modifique o funcionamento subjetivo descrito, tem demonstrado ser eficaz para curá-la.